O mais Belo Poema

Abilio Terra Junior

 

Nem uma oitava acima nem uma abaixo, pensava o maestro, enquanto regia a sinfônica, e as bailarinas, molhadas de suor, executavam ousados malabarismos. Ele observava atentamente cada gesto ou expressão facial, estava na primeira fila das poltronas do teatro. Anotava, com rapidez, tentando traduzir em palavras o que via e sentia: flores, maravilhosas flores, fluíam em precisas nuances, sorriam, brincavam, se exprimiam com naturalidade, cortavam e domavam o espaço, sabiam-se belas e admiradas, compactuavam com o público, extasiado.
Sentiu-se em sintonia com uma das bailarinas, de cabelos negros e uma leveza invejável. Ao terminar o espetáculo, postou-se junto à porta por onde elas sairiam. Cansou de esperar, mas valeu a pena, lá estava ela, se distinguindo entre tantas belezas fulgurantes. Aproximou-se, indeciso e tímido, murmurou um ‘olá’, ao que ela respondeu, curiosa. Mostrou-se receptiva, e ele a convidou para jantar, em um restaurante próximo.
Ela era inteligente, além de bela, conversaram animadamente, sem perceberem a passagem do tempo. Depois, ele a levou para casa, e se despediu dela com um beijo.
Foi para sua casa, entrou, ainda andando nas nuvens. Sua imaginação dava voltas e voltas e ele não conseguiu dormir. Vivia sozinho, se separara há anos e não tinha filhos. Escrevia contos, crônicas, romances, poemas, e esperava o retorno, demorado.
Finalmente, dormiu, e sonhou: morava em um palácio, junto a outros seres, como ele, sobre as nuvens. Sua veste era toda branca, cobria seu corpo em muitas dobras, e resplandecia. De lá de cima ele conseguia enxergar o que se passava no mundo, cá embaixo. Junto a uma lagoa, rodeada por um bosque, viu um grupo de lindas mulheres, que tomavam seu banho matinal. Entre elas, a ‘sua’ bailarina. Como era linda, que corpo perfeito! Ela sorria e se divertia com suas amigas, bem a vontade. Ele ficou embasbacado, admirando-a. Nisso, um grupo de homens barbudos, escondidos em moitas próximas, as observavam, cinicamente. Estavam, obviamente, mal intencionados. Antes que as atacassem, ele os transformou em estátuas, imóveis e inofensivas. Deu uma gargalhada, satisfeito, que ribombou nas alturas, e soou como um trovão na Terra, provocando nas moças olhares temerosos em direção ao céu. Mal poderiam imaginar que se originara dele, da sua vontade e poder.
No dia seguinte, se levantou, pegou seu celular e ligou para ela. Nada, ela não atendia. Tentou ligar para o teatro e nada, também. E o mesmo se repetiu nos dias seguintes. O que fora feito dela? Onde se metera?
Finalmente, resolveu ir ao teatro, assim conseguiria falar com ela. Lá chegando, conseguiu entrar, dirigiu-se à primeira fila, observando o ensaio. Mas não conseguia enxergá-la. Lá ficou, intrigado, sem entender direito o que estava ocorrendo. Onde estava a sua bela?
Terminado o ensaio, se dirigiu ao diretor, dizendo-lhe que procurava por sua amiga, Flávia, era o seu nome. Ele lhe respondeu que não havia nenhuma bailarina com esse nome. Intrigado ainda mais, ele se dirigiu a uma das moças, ‘conhecia a Flávia?’, não, ela respondeu, não tenho nenhuma colega com esse nome. Abismado, ele sentiu uma tonteira, ao que a moça o amparou, perguntando se estava indisposto. Ele respondeu que não, não era nada. Saiu do teatro cambaleante, sem entender nada. Chegando a calçada, enxugou o suor da testa e se sentou ao meio-fio, mal conseguia respirar. Abaixou a cabeça e respirou fundo. Ao levantá-la, olhou, por acaso, para o outro lado da rua. Foi quando, surpreso, distinguiu Flávia, entre a multidão. Ela o fitava fixamente. Tentou se levantar, mas antes que o fizesse, notou que ela desaparecera, repentinamente.
Voltou para casa, estava ensopado de suor. Tomou um banho, bebeu uma laranjada, sentou-se em frente ao computador e escreveu o mais belo poema da sua vida, para Flávia.

Abilio Terra Junior
01/02/2008

 

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