O Jardim dos Encantados, O Umbral e o Grande Castelo

Ela fez aquela rosa com toda a sua alma. E então a colocou no Jardim dos Encantados. Eles, os assim chamados "encantados", por ali circulavam, inebriados, admirando aquelas maravilhosas flores, e como os arbustos eram recortados em formas originais, e de como o próprio traçado do jardim era magnífico, e de como tudo aquilo mudava de forma, as vezes, misteriosamente, de modo a manter a todos os participantes naquele estado inebriante, que perdurava sempre. E, de como, também, nenhum deles se imaginava jamais em condições de se aproximar sequer do Umbral. Sim, pois naquele estado de uma permanente felicidade, ou que, pelo menos, assim parecia a cada um deles, em seu estado emocional e mental, porque arriscar-se a enfrentar novos riscos, novos enfrentamentos?
No Umbral, enfrentariam o Terror, sob uma forma inconcebível, pois era um Terror apropriado a cada um que o enfrentava, particular e singular! E, depois, talvez, conseguiriam ingressar no grande Castelo. E aí, talvez aprendessem grandes lições, dependendo do desempenho de cada um. Mas, e se não estivessem preparados, sequer para encarar, frente a frente, o Terror do Umbral? E, se sucumbissem ali mesmo, ante o seu próprio pavor pessoal?
E, admitindo-se que conseguissem ultrapassá-lo, teriam condições, cada um deles, de passar por etapas e mais etapas, cada uma delas, a medida que avançavam, mais desafiadora que a anterior, lá no grande Castelo, tornando-se, assim lhes diziam, libertos das suas próprias incapacidades, medos, apegos, grilhões psíquicos, que os prendiam desde que existiam?
Eram imensos desafios! Poucos conseguiam ir adiante. E o jardim era tão lindo, tão atraente! E os perfumes, dos mais variados matizes, brotando de cada rosa, de cada botão, de cada flor! E as cores, das mais suaves às mais carregadas! Dava para se ficar admirando aquelas maravilhas por toda uma vida! Ou até por mais de uma vida, se fosse possível! E as árvores, desde as mais frágeis às mais portentosas, de todos os gêneros e espécies!
Aquele jardim era por demais encantador, para que fosse abandonado! Principalmente, para se correr grandes riscos, dos quais nunca se saberiam quais os verdadeiros resultados.
O que ouviam dizer, vinha daqueles mais experientes, que, volta e meia, por ali passavam, trazendo suas mensagens, e, depois, continuavam os seus caminhos, sempre desconhecidos para os participantes do jardim. Alguns deles assemelhavam-se a anjos, ou talvez deuses, ou deusas (como a que produzira aquela rosa), ou seres que haviam ultrapassado aquela condição meramente humana. Pois o seu olhar, que olhar! Penetrava as suas entranhas, as suas mentes, as suas almas, e parecia descobrir os seus mais recônditos segredos! E traziam uma luz! Uma luz que não era a de um ser humano comum! Era uma luz que havia sido transmutada inúmeras vezes, ao longo de tantas experiências, que lhes parecia, a eles, humanos, ou "encantados", inconcebível!
E mesmo eles, os "encantados", só por estarem naquele jardim, já demonstravam estar, pelo menos, alguns graus acima dos "outros seres humanos, comuns", que nunca sequer uma vez haviam cogitado, em suas vidas, da possibilidade de se alcançar um estado de consciência diferenciado, alguns diriam "alterado", alcançado através de leituras, estudos, meditações, voltados para algo mais do que o simples e banal conviver social, familiar e cotidiano, seguindo preconceitos, normas e padrões pré-estabelecidos por gerações e gerações, ao longo de um infindável tempo.

 

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