Li a ‘Bíblia de Jerusalém’

Enquanto estive em Belo Horizonte, por uns dias, li a ‘Bíblia de Jerusalém’. Comecei do início do Velho Testamento e cheguei à página 83, se não me falha a memória. Poderia dizer que acolhi sugestão de um dos personagens do livro ‘O Jogo do Anjo’, de Carlos Ruis Zafón, o anjo, Andreas Corelli, que, em determinada passagem do livro, sugere a um outro personagem, escritor, David Martin, a leitura da Bíblia, do Ramayanna, dos Irmãos Grimm etc., como embasamento para que escreva, ou melhor, para que crie uma nova religião, tarefa das mais árduas, como se pode ver. É um livro surpreendente, característica deste autor, que me surpreendeu também com o seu outro livro, ‘A Sombra do Vento’.
Mas, voltemos à Bíblia. Tentei ser, ao máximo, imparcial, mas posso dizer que me pareceu empolgante, intrigante, principalmente, no meu caso, que já possuo uma visão gnóstica, esotérica, digamos assim. Já conhecia a Bíblia, é claro, mas nunca a lera dessa forma. Já lera muitas passagens, em diferentes épocas, de acordo com o interesse do momento. Mas, suponho que, da forma que agora li, percebi muitos detalhes importantes, sem dúvida.
Por exemplo, do uso do plural, por parte de Deus, em diversas passagens, o que sugere a atuação de toda uma corte celestial ou de uma plêiade de deuses. Também a importância da procriação (algo assim como ‘seus descendentes serão como as estrelas do céu e as areias da praia’), e do poder (algo como ‘suas posses serão infinitas, você será o senhor e dominador de muitos povos’). Os homens, como sempre, em dúvida, enganando, mistificando, mas contando com a proteção de Yahweh Deus, se prostrando ante ele, adorando-o, fazendo as suas oferendas, com o sacrifício de animais, o que era agradável aos olhos e às narinas do Senhor.
Os homens procriavam com as suas esposas, com as aias destas (no caso das esposas serem estéreis), com as irmãs destas, com as concubinas, com as suas primas. As mulheres se preocupavam, ao extremo, em serem férteis.
A presença física de Yahweh Deus, por exemplo, no Jardim do Éden, quando está a passear e a sentir a brisa agradável, e procura por Adão e Eva, mas estes se esconderam, pois perceberam que estavam nus, após comerem o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. E de como, usando o plural, Deus diz que agora eles são como nós, e se comerem do fruto da Árvore da Vida, não morrerão. E, diante disso, os expulsa do Paraíso. Portanto, havia a clara possibilidade de que Adão e Eva também se tornassem deuses.
Em outra passagem, Jacó luta com ‘alguém’; de novo, a presença física da divindade.
Percebe-se que os que adoravam Yahweh Deus eram protegidos por este, e de como se estabeleciam pactos, como, por exemplo, o da circuncisão, sendo que os que eram dominados, também eram circuncisados. Havia a preocupação de se casar dentro do mesmo clã, ocorrendo muitos casamentos consanguíneos.
Diante de todas essas observações, fica muito claro para quem tem conhecimentos de gnosticismo, catarismo etc que há, sem a menor dúvida, a atuação inequívoca do Demiurgo, o Deus que mantém o seu poder através de todas essas ações e atitudes, engendradas pela busca da riqueza, do poder, através da intensa procriação e do ostensivo paternalismo. O que leva à outra conclusão: o Deus do Velho Testamento não é, de forma alguma, o Deus do Novo Testamento.

Portanto, nada como a poesia para finalizar este breve ensaio:

os signos, os sinais, estão por toda parte
temos que ter olhos para ver, em uma vírgula, em um olhar, em um gesto, numa flor, numa folha, num galho de árvore, numa palavra, num traço, numa cor,
seguirmos a grande trilha da natureza
rica, generosa, poderosa e bela
nos perdermos em todos os mistérios que nos cercam e dominam
aprender ao longo do tempo
aprender a amar ao compasso da humildade, da brevidade, do cerco que se fecha
admirar a beleza em todas as suas formas
saber que luz e trevas se entrelaçam e que somos pequenos ante elas
respeitar a Terra como os antigos índios
não se deixar enganar (o que é muito difícil)
ouvir os humildes, amar os animais, perceber as tramas dos poderosos
saber que há um Poder Maior, que é um mistério insondável e que convive conosco todo o tempo, ao nosso lado, dentro de nós, e que age, sem que o percebamos,
perceber as sincronicidades

Abilio Terra Junior
22/08/2009

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