Bronto

Bronto olhava em torno de si e pensava no que havia feito. Não fora sutil, pelo contrário, destruíra muitas peças de vidro enquanto bailava com a Framboesa. Mas, pensando bem, aceitara muitas normas sem questionar ; também nunca lhe deram um espaço propício a qualquer questionamento. De vez em quando, era bom quebrar algumas regras. Introspectivo, sondava suas entranhas milenares em busca de respostas.
As moças gritavam na rua, na algazarra com que provocavam os rapazes. Esses, para não perderem o brio, também gritavam, mas sem a mesma ênfase. Como homens, possuíam um censor mais atuante. Nunca conseguiriam sequer se aproximar da exuberância feminina, com aquela espontaneidade com regras ocultas, de que só as mulheres são capazes.
Framboesa também estava cansada. Suas pernas, pequenas mas bem torneadas, até tremiam, após tanto tempo dançando. Seus olhares se dirigiam, lentos e cálidos, ao Bronto, como carinhosamente o chamava, em suas ternas trocas de mensagens de amor. Sabia ser impossível a consecução daquele amor, mas ainda assim, seu coração batia descompassado, cada vez que o via.
Em seu ócio criativo, Bronto imaginava mil caminhos em que criaria situações incomparáveis para si e para a comunidade, tanto dos brontossauros quanto das framboesas. Sua imaginação, tão fértil, e sua realização, tão incipiente. Era aquela velha equação, típica da sua espécie.
Os brontossauros eram conhecidos como estritos cumpridores dos seus deveres. Contudo, possuíam uma tendência inata para se anular diante de espécies bem menos sensatas que a deles, como, por exemplo, a das framboesas. Um dia, Bronto bem o sabia, a sua espécie desapareceria, mas a das framboesas perduraria, apesar da sua inconstância e superficialidade.
Ele era inteligente e culto. Além disso, possuía uma incrível capacidade premonitória. Enxergava pelos milênios afora todas as grandes catástrofes que estavam por vir, a princípio, naturais, mas depois provocadas por outras espécies menores, desatinadas em sua vaidade e egoísmo.
Tristonho ficava então ao compreender, pela sua sensível intuição nascida das suas notáveis glândulas, que tudo o que havia naquele diverso mundo iria sucumbir ao longo do tempo. E de como ele, Bronto, nunca seria entendido, em tempo algum, a despeito de toda a sua incansável acuidade.

 

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