Não havia palavras. AS letras despencavam pelas tabelas, esbaforidas, fugindo dos seus algozes. E a terna mãe embalava em seu colo o fortuito, certa de que era ele o predestinado a desaparecer no infortúnio. Mas as jovens casadas, esfaimadas, debulhavam as fibras escondidas, roliças, escalavradas, salpicadas de odores.
E o predestinado sabia-se perdido na imensidão do seu Inconsciente. E ainda assim, lutava, como um cego que se debate à meia noite, à procura dos seus ossos, muitos deles esverdeados pelo clamor da terra, em decúbitos, e drásticos espasmos. Sua missão parecia alvissareira, mas não era, pois se perdera antes mesmo de se iniciar. Às vezes, percebia-se arrastado pelas mesmas forças que o haviam criado, infringindo absurdas leis, impostas por vernáculos que se diziam acadêmicos.
Mas a boca ressequida impressionava, por seus dentes protuberantes que tentavam sorrir, mas esmigalhavam partículas proto-incipientes . Nada a velar, apenas a imensidão de um azul ilimitado que iludia e, ao mesmo tempo, esmagava a pseudoperfeita saudade de outros tempos. Nada escapava, os sabores e os odores perdiam-se, deslumbrados, ante o corpo da mulher, rosáceo, com alguns pêlos, que jazia ancorado à maior árvore, a mais negra, cujas raízes perfuravam o magma e se retorciam, profanas, perdulárias, escapistas.
Mas o ventre da mulher não cessava de se dilatar e se espargir por toda a imensidão multilateral, reproduzindo corpúsculos, que se multiplicavam, incessantemente. Era o princípio e o final do caos.
E os seres criadores, invisíveis, perpétuos, lançavam o seu sêmen iconoclasta em homenagem à mulher, que se fazia de desentendida. E as espécies, de tão múltiplas e aguerridas, pulavam de mundos em mundos.
E um imenso eflúvio pernoitava, lactante, a translúcida sensibilidade inerte e paradisíaca. E o som do blues, chorava, amortecido e pujante. E os seus criadores morriam, mas o som permanecia pelas esferas. Muitas almas avolumavam-se, crendo-se poderosas. Massacravam pedestres e às vezes derrubavam rochas e moviam cata-ventos. E atravessavam o contínuo, céleres, nervosas, e disseminavam blues, que assim perduravam. E as feras mantinham o compasso. E os homens aprendiam com elas e as diziam culpadas.
Mas na imensidão do caos, os seres criadores não permitiam que elas se perdessem e preservavam os seus alentos.

Abilio Terra Junior
20/01/2009


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