Gustavo Dourado

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Gustavo Dourado. Bahiano de Recife dos Cardosos-Ibititá (Irecê)-Chapada Diamantina, Gustavo Dourado(Amargedom).No DF há 29 anos atua/atuou nos movimentos poéticos, ecológicos, populares, estudantis(UnB), socioculturais.
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Tese de Cordel Entrevista de Gustavo Dourado a Patrícia Cristina Araújo: Tese de Doutorado em Cordel: Universidade Federal da Paraíba.

ENTRE RIMAS E VERSOS:
CORDEL, A ARTE DE FAZER HISTÓRIA
Patrícia Cristina Araújo

Nome: Francisco Gustavo de Castro Dourado

Nome Literário: Gustavo Dourado

Pseudônimo: Amargedom

Escolaridade: Graduação: Letras (UnB) Pós-Graduação: FBT – FADM - Arte-Educação; Educação; Literatura; Teatro; Linguagens Artísticas; Gestão Pública (EG/ONU).

Idade: 44

Natural de: Recife dos Cardosos – Ibititá - Região de Irecê - Chapada Diamantina -Baixo Médio São Francisco – Estado da Bahia – Brasil

Local onde mora:

Candangolândia – Brasília - DF

Atividade que exerce atualmente:

Professor/Educador/Escritor/Cordelista/Pesquisador/Gestor/Produtor e Consultor Cultural.

Número de cordéis publicados: 226 no total, sendo 222 virtuais, 6 em ofsete, alguns em antologias, jornais, sites, fanzines, blogs e revistas.

*Ps 1: No prelo: Cordeli@

Antologia poética virtual de Literatura de Cordel Gustavo Dourado

www.gustavodourado.com.br/cordel.htm

*Ps 2: Mais de mil cordéis escritos e inéditos.

DATA DA ENTREVISTA: 07 de março de 2005.


1. Quando você começou a escrever os primeiros folhetos e de quem recebeu influência?

GD : Comecei primeiro a improvisar por volta dos 3/4 anos, na Bahia, quando fui alfabetizado pela minha mãe Edelzuíta de Castro Dourado,por meio de histórias, causos e cantigas e por meu pai, Ulisses Marques Dourado, por meio do Cordel, da Bíblia e do Repente, ouvindo cordelistas e cantadores de vários estados brasileiros (principalmente da Paraíba, Bahia, Ceará e de Pernambuco), lá na antiga “venda” de meu pai (era um pequeno empório comercial) e em diversas feiras do sertão da Bahia. Os primeiros cordéis que li foram: “Juvenal e o Dragão”, Romance do Pavão Misterioso, Imperatriz Porcina e folhetos sobre Lampião e o Cangaço, Canudos e Antônio Conselheiro, Padre Cícero e Frei Damião, adquiridos por meu pai Ulisses, nas feiras da Região de Irecê...Ouvia também muitos cordéis sobre os Revoltosos (Coluna Prestes), cangaceiros, jagunços, coronéis, Horácio de Matos, Manuel Quirino, aboios e improvisos de meu poeta-irmão Edenivaldo e dos vaqueiros/boiadeiros e dos tropeiros que circulavam pela região. Além dos desafios e pelejas no rádio. O meu primeiro cordel foi escrito/improvisado aos 6 anos, sob influência da Bíblia e foi uma homenagem às Mães. As minhas principais influências são de repentistas, cantadores, “reiseiros”, rezadeiras, adivinhos, contadores de histórias e causos e cordelistas anônimos que circulavam pelo sertão. Recordo de Zé de Duquinha, um genial repentista sertanejo, que cantou com vários poetas na Rádio Nacional e em emissoras do Rio-São Paulo. Creio que a maior influência seja do príncipe do cordel, o genial Leandro Gomes de Barros (autor de centenas de histórias), de João Martins de Athaíde, Rodolfo Coelho Cavalcante, Cuíca de Santo Amaro e de tantos outros cordelistas que tinham os seus folhetos divulgados nas feiras do sertão do Baixo Médio São Francisco/Chapada Diamantina - Bahia. Dos repentistas e artistas musicais tenho uma vaga lembrança de ouvir além de Zé de Duquinha, Lourival e Otacílo Batista, os Irmãos Bandeira, Pinto do Monteiro, Marcionílio Rosa, Palmeirinha, Rota e principalmente Luiz Gonzaga, Zé Gonzaga, Furinchu, dos tropicalistas Gil e Caetano, Chico Buarque e até Teixeirinha do Rio Grande do Sul e muitos sanfoneiros “arretados”, cabras da peste do forrobodó, como se diz lá no Sertão... É preciso ressaltar a presença dos circos e dos artistas circenses. Eles eram uma constante na época em que vivi lá na Bahia (1960/1975). Tem-se que destacar a atuação desses artistas populares fenomenais: palhaços, mágicos; acrobatas; bailarinas; mamulengueiros; trapezistas; acrobatas, domadores e tantos outros que com sua graça e maestria nos davam um pouco de alegria e prazer.


2. Qual foi o seu primeiro folheto? E o primeiro folheto com tema histórico?

GD : O meu primeiro folheto publicado foi “Transformação do Movimento Estudantil”(1980), de cunho histórico, pois destaca os momentos mais importantes do Movimento Estudantil, UNE, as diversas tendências, o líder estudantil Honestino Guimarães e os momentos cruciais da Ditadura Militar: O AI 5; a repressão política, a ocupação da UnB, a luta pela Anistia e pela redemocratização do Brasil. Grande pare dos meus cordéis são históricos e biográficos, outros são políticos, jornalísticos e satíricos. Alguns são científicos e de cunho ficcional. Fiz um cordel em 1980, sobre Lula e a Greve do ABC...O cordel sumiu lá na UnB. Alguém “surrupiou”, não sei com que interesse?!. Será que alguém adivinha? Talvez, com cunho político, para esconder os fatos e a triste realidade de uma época de censura. Era época do governo Figueiredo e a espionagem do ( S.N.I ) era um fato comum e corriqueiro...Muitos dos meus cordéis críticos, que eu recitava nas reuniões e assembléias: “desapareceram”...Preciso reescrever a maioria dos cordéis e poemas desse período, que foram expropriados por agentes da Ditadura.


3.Para você o que é ser cordelista?

GD : Ser cordelista é ser um representante fiel e legítimo da autêntica Cultura Popular Universal: brasileira e nordestina por excelência. É amar o Brasil, o Nordeste, o Sertão, a Caatinga, o Cangaço, Lampião, Maria Bonita, Mulher Rendeira, Corisco, Canudos e Antônio Conselheiro, o forró, o baião, o xote, o xaxado, o São João, o aboio e o baião da viola, A xilogravura, as cactáceas e xerófitas, as romarias, o pensamento de Paulo Freire e Anísio Teixeira, Luís da Câmara Cascudo, Mestre Vitalino, Zumbi dos Palmares, Auta de Sousa; Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Nísia Floresta, João Cabral de Melo Neto, Cego Aderaldo, Ivanildo Vilanova, Severino Pinto, Otacílio e Lourival Batista, Oliveira de Panelas, Orlando Tejo e Ariano Suassuna. Conhecer as histórias de Trancoso, Bocaje, Camões, dos 12 pares da França, Antônio Conselheiro, Padre Cícero, Floro Bartolomeu, Jesuíno Brilhante, Quelé do Pajeú, Frei Damião, Zé Pereira, Marcolino, Juriti, Lucas de Feira, Corisco, Antônio Silvino, Volta Grande. É Zelar pelo Brasil, o seu povo, o patrimônio público e a grandeza e história de nosso país. Ser cordelista é antes de tudo: ser sertanejo e catingueiro e fazer valer o dito pensame do mestre Euclides da Cunha, de que: “O sertanejo é antes de tudo um forte...” Um resistente às terríveis intempéries da política, do tempo e do destino. É antes de tudo ser um lutador combatente em favor das causas populares. É ser intérprete das coisas e valores da brasilidade. É ser regional sem esquecer de ser universal. É ser poeta e sonhador, acima de tudo.


4.Na sua opinião, qual a importância do trabalho do poeta popular para a cultura e sociedade brasileira?

GD: O cordelista é o jornalista do Povo. Ele não deve ter compromisso com os meios oficiais. Deve ser um porta-voz da população em suas reivindicações e demandas. Deve ter total autonomia e liberdade para escrever sobre os problemas e esperanças de sua gente. O cordelista além de inspirado e bem informado deve ter um lado crítico e independente. Deve ser o defensor perpétuo das causas populares e dos nossos valores culturais mais importantes e que devem ser preservados. Tem que ter a fibra e a estirpe de um Antônio Conselheiro, Luís da Câmara Cascudo, Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, Antônio Nóbrega, Glauber Rocha, Lima Barreto, João Gilberto, Raul Seixas, Zé Ramalho, Elomar e de um Ivanildo Vilanova.


5.Qual o significado do cordel em sua vida?

GD: O cordel para mim é quase tudo e de tudo um pouco. É uma das chamas de minha alma. Meu espírito satírico e picaresco. É a quintessência e o cerne de minha existência literária e trajetória poética. Nasci com o cordel e a poesia popular e ela teve uma grande influência em toda a minha vida de estudante, educador e pesquisador da cultura popular. A cultura do cordel vem de berço, da infância e permeou toda a minha vida de professor e poeta. Foi graças ao cordel que consegui pelo menos uma mínima projeção entre os meus pares. Foi o cordel que me abriu os caminhos para o infinito universo da poesia. No cordel me alfabetizei e por meio dele conheci a Bíblia, as enciclopédias, dicionários, os almanaques e o Lunário Perpétuo. Depois veio o baião, o forró, o xote, o xaxado, o cangaço e as mil e uma histórias dos dias e das noites do infinito sertão, das veredas, cacimbas, tanques, locas, roças, terreiros, lagoas e lajedos. Do pouco o que sei de poesia e literatura no geral, tudo teve início com a magia da literatura de cordel.


6.Quais os temas que você mais discute em seus folhetos? Por que?

GD :Discuto de tudo um pouco e um pouco de tudo, temas diversos e variados. Educação, realidade e cotidiano vem em primeiro lugar. Educação como um todo. Educação como prática de liberdade e libertação do ser. Os temas sociais e culturais estão sempre em evidência. As lutas populares, as reivindicações sociais, os protestos e reclames, seus sonhos e acima de tudo a esperança que o povo nutre na busca pelo progresso, nas mudanças e transformações que se fazem necessárias para mudar o mundo tão maltratado pelos poderosos.


7.Na elaboração de um cordel que tipo de fonte você geralmente utiliza, televisão, rádio, jornais, livros ou revistas? Por que?

GD: Utilizo de tudo um pouco. As fontes da tradição popular e os caminhos já percorridos pelos grandes poetas e cordelistas. A primeira fonte é a inspiração, o raciocínio e o pensamento. Depois vem a tradição oral do sertão, dos catingueiros. Textos dos cordelistas precursores, como Leandro Gomes de Barros e de mais recentes como Rodolfo Coelho Cavalcante e Patativa do Assaré. A cultura oral dos contadores de histórias, dos causos e contos populares. A primeira fonte é o povo e suas ações que se complementa com a leitura de livros, jornais, revistas, portais da Internet e muita pesquisa. O rádio sempre esteve presente em minha vida desde menino (jornalismo, variedades, programas musicais) e a TV é fundamental pelo caráter informativo e jornalístico. É essencial acompanhar o noticiário da TV, apesar de certa superficialidade e alienação imposta aos telespectadores (prefiro a tv por assinatura). Há muito controle e manipulação no produto final que é apresentado aos usuários. A tv precisa ser mais interativa e menos alienante. Deve servir mais ao público do que ao privado, a interesses mesquinhos e aos donos do poder. Precisa estabelecer uma visão mais independente e crítica e não se submeter às ordens impostas pelos grandes anunciantes, tubarões, mandatários e poderosos de plantão, que estão sempre de tocaia.


8.Na sua opinião qual a contribuição do cordel para a educação?

GD: O Cordel é importante para a educação em vários aspectos. Por ser uma arte que reflete a linguagem popular, o cordel pode retratar o fato histórico com mais objetividade. Durante o massacre de Canudos, o que ficou registrado oficialmente foi a história dos que cometeram a barbárie. Apesar de Euclides da Cunha ter transformado o seu “relatório”, numa autêntica peça literária e obra-prima histórica. Além da versão euclidiana, o episódio de Canudos foi retratado por vários cordelistas e poetas. Os pensadores populares têm uma visão mais fidedigna dos fatos. Essa forma de originalidade e autenticidade do cordel é fundamental para a transparência do real e de uma boa divulgação dos fatos históricos. Para a educação: coerência, verdade e transparência são importantíssimos. Uma educação mentirosa, falsificadora e alienante deturpa os fatos e obscurece o pensamento e o desenrolar do processo sócio-cultural. O cordel quando bem escrito retrata com presteza a realidade histórica a facilita a compreensão dos acontecimentos por parte dos agentes educacionais e da sociedade como um todo.


9. Qual o significado do trabalho do cordelista para a História?

GD: O trabalho do cordelista reflete a história de acordo com a realidade. A Poesia é a voz do povo. O cordelista narra os fatos de acordo com o ocorrido. Muitos fatos históricos que são relegados pela História Oficial recebem o merecido destaque da Literatura de Cordel e dos poetas populares. Leandro Gomes de Barros (Poeta Jornalista), com os seus cordéis factuais resgatou a história de muitos acontecimentos ocorridos no sertão do Nordeste. Eventos que jamais seriam narrados pela dita História Oficial, tão burocrática e preconceituosa e avessa aos feitos e causas populares.

10. Para você, qual a importância de se discutir nos cordéis temas relativos à história local, a história regional, a história nacional e a história a nível mundial?

GD: O cordel por ser direto e de fácil compreensão e por ter uma dialética acessível ao público permite ao poeta tratar de temas relevantes e abrangentes. Relato em meus cordéis temas locais de Brasília, da Chapada Diamantina, da Bahia como um todo e temas diversos do Nordeste e do Centro-Oeste, sem esquecer os temas do dia-a-dia do mundo. Pesquiso a História do Brasil e universal e procuro dar uma visão mais popular e holística. É preciso que os poetas representem os temas de nosso povo de forma clara, sincera e transparente, sem rodeios e sem deturpações.

11. De que modo você seleciona os acontecimentos históricos que você discute nos cordéis?

GD: Pela relevância dos fatos, depois de muita análise, leitura e reflexão. Leio muito e procuro desenvolver os cordéis com uma visão mais crítica e realista, sem entretanto esquecer do importante tempero da intuição e da criatividade.

12. Como você vê a utilização do cordel nas escolas?

GD: É muito bom que se faça uso dos cordéis nas escolas. Se as crianças e adolescentes tivessem mais acesso ao cordel e sua histórias, creio que a educação teria um melhor retorno. O Cordel é muito dinâmico e o seu uso pode impulsionar a criatividade dos alunos, principalmente de crianças e adolescentes

13. Você acredita que o poeta popular educa através do cordel?

GD: O poeta popular cordelista é um educador nato. Ouvi isso da boca do célebre professor Paulo Freire. A poesia de cordel desperta, provoca reflexão e questionamento. Registra a autenticidade do fato histórico, sem a censura “prévia” e interna a que se impõe a mídia e os meios de comunicação. O poeta popular é um professor de notório saber e representante primordial de nossa gente.

14. Como você vê o uso do cordel no computador?

GD: A informática, o computador e a Internet deram um impulso fenomenal à Literatura de Cordel. Criou uma nova arte e facilitou a divulgação e a distribuição das idéias. Agora, além dos folhetos tradicionais, surgem os “folhetos virtuais” e eletrônicos...É preciso integrar as duas formas. O computador é a tipografia do cordelista. O correio eletrônico e os sites/sítios é o jornal do poeta popular, que agora tem em suas mãos uma ferramenta maravilhosa para desenvolver e divulgar o seu trabalho, com uma velocidade impressionante.

15.Para você qual a importância de se discutir temas relativos à educação na literatura de cordel?

GD: É de importância vital. A educação é tudo. Ela liberta e eleva a consciência do ser humano. Inserir a educação no contexto da literatura de cordel proporciona ao povo e às massas o contato com a reflexão de temas sociais e o questionamento da realidade objetiva. Gosto de fazer pesquisa de temas educacionais e transformá-los em versos de cordel e o retorno tem sido excelente. Tenho tido uma ótima receptividade do público, que inclusive sugere temas para serem desenvolvidos em versos.

 

 

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