Entrevista para Zena Maciel – Editora da Revista "Oi".
Portal "Cá Estamos Nós" – CEN.

 

Nome do Entrevistado: Abilio Terra Junior


1 - Como se define como pessoa e como poeta (a)?

Como pessoa, sou mineiro de Belo Horizonte (ou Bérizonte, se preferir), portanto, vivo em uma cidade que combina em si características de grande cidade agitada e de pacata cidade do interior (há, por exemplo, muitas mortes violentas no final de semana, mas no temperamento mineiro-belorizontino, ainda há muitas daquelas características do cidadão interiorano, desconfiado, risonho, com quem se conversa facilmente, mas que nunca comenta suas intimidades). Portanto, convivo com essas ambigüidades no meu dia-a-dia e as conservo, de certa forma, em meu próprio modo de ser. Sou aberto a novas idéias e a longas introspecções, mas, basicamente, sou conservador em muitas das minhas atitudes.
Como poeta, também convivo com a ambigüidade, pois, por formação acadêmica, sou economista e, como tal, com uma visão bem realista e pragmática das relações sociais e econômicas deste mundo que nos cerca. Mas, sempre tive uma grande queda pela visão antropológica de mundo, que muito me atrai e, por outro lado, mergulhei, desde muito cedo, nas organizações esotéricas e entidades assemelhadas, por onde permaneci muito tempo, o que me colocou em contato com uma perspectiva um tanto ou quanto transcendental de universo e todas as suas inúmeras correlações, sem abandonar a ciência, que apresenta, indubitavelmente, o seu grande valor. Portanto, valorizo muito o sonho, ao lado da realidade cotidiana, e na minha poesia abro as portas entre o consciente e o inconsciente, o racional e o irracional, o lógico e o ilógico, pois acredito que todos possuem o seu peso e a sua medida, que são respeitados e visitados por mim, quando mergulho nesta supra-realidade, da qual somos todos parte, na minha concepção. As limitações só existem nos preconceitos e intolerâncias que são cultivados com carinho por muitos ainda.

2 - Recorda-se quando começou a escrever (e o que escreveu) ?

Comecei a escrever ainda muito cedo, mas sem me intitular escritor. Escrevi diários, escrevi para Seções de Leitores de jornais, mas sem disciplina e sem ambição. Foi quando me deparei com a Internet, com a sua amplitude sem limites (em todos os sentidos). Foi então que iniciei uma atividade mais disciplinada na escrita, participando de alguns grupos de discussão e de um curso on-line, " Carpintaria Poética", ministrado pela poeta Leila Míccolis, do site literário "Blocos". Depois, coloquei o meu primeiro livro virtual ou e-book de poesia no site Hotbook, da Roberta Rizzo, ao qual se seguiram outros. Participei de diversos sites literários com meus poemas, contos e crônicas, como, por exemplo, do "Usina de Letras", até que, através de um amigo internauta, fui introduzido no Portal "Cá Estamos Nós", do amigo Carlos Leite Ribeiro, no qual estou até os dias de hoje, junto a seu grupo entusiasta e alegre, entre os quais está o também amigo Lourivaldo Perez Baçan, que é também o Webmaster da minha homepage, "Os Homens Pássaros". Dedico-me com mais afinco à poesia, com a qual possuo muita afinidade, mas não desprezo os contos e crônicas, que também me trazem muito prazer ao escrever.

3 - Qual foi o momento mais gratificante ao se tornar poeta?

Talvez tenha sido quando vi a minha primeira poesia editada em um site literário. Ou quando recebi a primeira (e até agora única edição) de um livro meu impresso. Ou quando recebo comentários elogiosos sobre os meus textos. Ou quando sinto que uma poesia (ou conto ou crônica) alcança um nível de qualidade que me deixa satisfeito (o que, diga-se de passagem, varia muito com o momento).

4 - Algum poeta ou escritor o influenciou?

Entre os poetas, Carlos Drummond, Mário Quintana, Murilo Mendes, Ruy Espinheira Filho, Ivan Junqueira, Fernando Pessoa, Mário Faustino, Alberto da Costa e Silva, Lêdo Ivo, Carpinejar, Rainer Maria Rilke, entre tantos outros.
Entre os escritores, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Octavio Paz, Jorge Luis Borges, Graciliano Ramos, Hermann Hesse, Henry Miller, Franz Kafka, Autran Dourado, entre tantos outros.
Não poderia deixar de citar o pensador e psicanalista Carl Gustav Jung, autor de livros em que consegue um notável equilíbrio entre o método científico de análise e as imagens e impressões intuitivas do inconsciente.

5 - Para escrever de onde vem sua inspiração?

A minha inspiração vem do meu interior, basicamente, mas sou também influenciado por atos e fatos do momento; portanto, há um constante entrelaçamento de emoções e imagens íntimas com cenas que estou presenciando naquele instante, ou com notícias e impressões que me chegam. É um processo dinâmico que pode se iniciar a partir de uma vontade ou desejo interior ou que pode ser desencadeado com as primeiras palavras que escrevo. Às vezes, tenho a nítida impressão do que vou escrever e outras vezes, não tenho a mínima idéia.

6 - É possível se realizar como poeta?

Sim, acredito que quando se consegue escrever um poema que, em contato com o leitor, vai se transformar numa poesia plena, ou seja, que este triângulo complexo e pendular, poeta-poema-leitor se transmuta ou se realiza em uma autêntica poesia, então acontece a realização do poeta. Aí, de triângulo passaria a quadrado, poeta-poema-leitor-poesia, e o número quatro é o número do equilíbrio, da estabilidade. Todo este complexo universo único e vivo alcançaria a sua plenitude e aí entraríamos no reino da física quântica, em que, por exemplo, os elétrons mudam de camadas no átomo a seu bel prazer e o observador influencia o fenômeno observado. Ou no mundo do Realismo Fantástico ou do Surrealismo, que está tão vivo hoje como na segunda década do século passado, quando surgiu, com o "Manifesto do Surrealismo", de André Breton. As palavras são insuficientes para explicar. É o universo do mistério, da magia; pois precisamos nos lembrar que a poesia foi a primeira manifestação cultural do homem. A Antropologia nos ensina que os seres ditos primitivos são poetas por natureza. E os mais antigos registros históricos e antropológicos nos provam que a poesia é latente nestes seres, assim como o é nas crianças. Quanto a outros tipos de realizações, como vender muitos livros ou ganhar dinheiro, acho que não tem muito a ver com a poesia. O poeta Soares Feitosa, criador do famoso "Jornal de Poesia", um marco na literatura em língua portuguesa, diz que os livros de poesia deveriam ser doados, circularem de mão em mão, deixados nos bancos dos parques para serem encontrados e lidos e repassados novamente. Este o papel da poesia, dos poetas e dos livros de poesia, serem um exemplo e uma lembrança de valores milenares que nunca se perderão, a despeito da massificação, do imediatismo e do cinismo dos dias de hoje.

7 - O que é mais gratificante na arte de escrever?

Sentir que estamos abrindo o nosso intrincado mundo interior para os nossos leitores, que eles compartilham deste mundo e encontram similaridade com o seu próprio mundo interior. É esta troca intensa que nos proporciona tanto prazer a nós, escritores, e a nós e vós, leitores, pois que nós escritores também somos leitores.

8 - Tem livros editados (se tiver, quais os títulos, editora e ano) ?

Tenho apenas um livro editado, de poesia, " Os Homens Pássaros", Câmara Brasileira de Jovens Escritores-CBJE, 2002.
Mas participei também da Antologia Livre Pensador, editada pelo Grupo Editorial Scortecci para a XIII Bienal Internacional do Livro de São Paulo-2004.

9 - Quais os seus escritores preferidos ( primeiro os clássicos e depois os contemporâneos) ?

Alexandre Herculano, Dante Alighieri, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drummond, Monteiro Lobato, Mário Faustino, Octavio Paz, Jorge Luis Borges, Fernando Sabino, Autran Dourado, Ruy Espinheira Filho, Ivan Junqueira, Lêdo Ivo, Alberto da Costa e Silva, Carpinejar.

10 - Literariamente, quais os projectos futuros ?

Pretendo continuar escrevendo sempre e, na medida do possível, publicar outros livros. Também continuar com os meus livros virtuais, que já são seis, sendo quatro de poesia e dois de contos e crônicas, na Biblioteca Virtual "Cá Estamos Nós", além de continuar participando de suas antologias e revistas literárias (tenho também uma antologia organizada por mim, com a participação da minha esposa Luiza Helena e das amigas Jane e Greece). Com relação à publicação de novos livros, como envolve um alto investimento, regra geral, precisa ser muito bem planejado, daí a demora em publicar.

11 - Qual o conselho que você daria para quem está começando a escrever?

Primeiro, não ter receio de se expor publicamente, pois o ato de escrever é tão prazeroso, que compensa eventuais riscos envolvidos nesta exposição. Lembrar-se que escrever é um ato extremamente enriquecedor, para o escritor, assim como a leitura o é para o leitor.
Segundo, escrever, escrever, sempre que surgir uma oportunidade, ainda que o "censor interno" diga não, ou sopre no ouvido que se está sendo ridículo. Não lhe dê ouvidos, continue a escrever. Terceiro, procure se aprimorar, não se contente com o seu conhecimento atual, leia sempre, selecione o que lê, procure bons autores e procure melhorar sempre a sua forma de escrever.

 

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