Marginal é a senha


Marginal é a senha.
Mas não um marginal marginal, mas um marginal natural.
Porque se nasces com essa sina, assim serás, independente de quem sejas, onde estejas, tua profissão, teu preparo.
Cocteau percebeu tudo isso, ao contar a história de Orfeu, à sua maneira, no seu filme. Ele se apaixona pela Morte, a Princesa, e se encontra com ela, na outra dimensão, ao atravessar o espelho, pois as bacantes conseguem destruí-lo.
Se nasces poeta, morrerás poeta.
Hoje, ninguém entende isso. Confundem poesia com lirismo.
Poesia é viver no fio da navalha, é vislumbrar além do possível, do visível, dos costumes, da sociedade, do status quo, do que é aceitável pelos que se vendem aos modismos.
É colocar o dedo na ferida, calmamente, é não ter função.
É frequentar outros universos nos seus sonhos e nos seus poemas, é conviver com os deuses.
É viver no mundo mitológico, na acepção original do termo, não no sentido deturpado que lhe deram depois.
Nem precisa escrever poemas, poetar é viver ao lado, no mundo paralelo, sabendo-se incompreendido, sem esperar compreensão.
É seguir naquele corredor escuro, entregando-se ao odor do pressentimento, da flor que murcha, do anjo-mendigo, da mulher com o cão no centro da praça, sabendo que nunca mais a verá.
É olhar para o teto e ver que as paralelas se encontram naquele mundo que apenas ele conhece.
‘Toda essa árvore de púrpura dos precipícios do mundo/ até ao centro onde pulsam os frutos vivos’ (Herberto Helder).

Abilio Terra Junior
31/03/2012


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