Um Relincho, Dois Relinchos, Três Relinchos...

Ili (abreviatura de Ilich) estava na venda da vila, comprando mantimentos para a sua fazenda. Viúvo há alguns anos, vivia com os seus três filhos, de 19, 16 e 13 anos, dois rapazes e uma moça, na sua fazenda, em que criava gado leiteiro e de corte, galinhas, ovelhas e plantava hortaliças, milho, cereais em geral.

Agora, estava na dúvida. Sua filha falara em uma frigideira, daquelas pequenas, para fritar ovo... sim ou não? Pensou um pouco, na dúvida, resolveu levar. Ele era de origem russa, sua família viera, há gerações, das gélidas estepes tentar a sorte e novos horizontes no longínquo e bravio oeste norte-americano. O vendedor e dono da venda era de origem tcheca, que coçava, neste instante, a barba por fazer. Ele, por sua vez, sentiu uma irresistível coceira no saco, e não vacilou, coçou com vontade até sentir uma sensação de alívio. A esposa do vendedor virou as costas e caminhou para os fundos da loja, com cara de poucos amigos; mulheres não entendem dessas coisas...

Foi quando ouviu um relinchar, que penetrou no ponto mais fundo dos seus ouvidos. Virou-se e se dirigiu à entrada da venda. Lá fora, esperando-o, estava o seu cavalo Ivã (o Terrível, como ele o apelidara), atrelado à uma carroça, uma figura imponente, com seu pêlo e crinas bem tratados, com uma cor marrom clara e uma inteligência arguta. Era o autor do relincho estridente e supersônico. Queria algumas guloseimas. Ili já as trouxera, sabendo de antemão dos gostos e preferências do seu parceiro e amigo de tantas jornadas e aventuras. Aproximou-se de Ivã, abriu a sua mão e o cavalo abocanhou, carinhosamente, cada um dos petiscos. Uma bocada daqueles dentes poderosos e lá se iria, para sempre, um dos seus dedos. Mas sabia que não corria esse perigo.

Entrou na venda. Tinha uma lista, feita pela sua filha, ajudada pelos irmãos, mas, ainda assim, faltava, geralmente, uma coisa ou outra. Como a distância era enorme, o ideal seria que se lembrasse logo de tudo...

Outro relincho; às vezes parecia que só ele ouvia, tamanha a estreita amizade entre Ili e Ivã. Voltou-se, abriu a porta da venda e se deparou com um japonês, com os olhos ainda mais estreitos de raiva, que lhe disse, contido ao extremo: - Senhor, esse cavalo é seu? Estava passando, com a minha esposa e a minha filha, e ele relinchou, provocando um susto na minha mulher e em mim, e o choro da minha filha. O senhor poderia ensinar bons modos ao seu cavalo?

Ili concordou, pediu desculpas, despediu-se do japonês com um movimento da cabeça e entrou para a venda, não sem antes olhar para Ivã, que balançava a crina para espantar uma mosca.

Agora, de novo dar tratos a bola para se lembrar de mais algum item necessário e imprescindível.

Outro relincho. Ao abrir a porta, surpreendeu-se com a beleza da mulher, um rosto muito expressivo, olhos grandes, que lábios. Os olhos, maiores agora, ao lhe falar: - Meu caro, o que há com esse pangaré? Alucinou de vez? Ao passar bem em frente a ele, ouvi um relincho que me arrepiou os cabelos!

- Minha senhora, disse ele, ponderadamente.

- Olha aqui, mais uma dessas e eu me queixo ao xerife, ouviu bem? E se retirou rapidamente.

Ili ficou observando-a por alguns instantes. Que mulher! Pensou lá com os seus botões, implícito aí todos os sentidos imagináveis dessa expressão.

Olhou para Ivã, que estava escavando o chão com a pata direita, como se procurasse uma minhoca...

Entrou para a venda, resignado, pois conhecia muito bem o amigo, e não por acaso lhe apelidara de “o Terrível”.

Sim, agora se lembrava, um pote de mel, disse apressadamente, antes que se esquecesse.

Mais um relincho. Abriu a porta, o que era agora? Ah... do outro lado da rua poeirenta, passava uma bela égua, branca com manchas escuras espaçadas pelo corpo, trotando, alegremente e puxando uma charrete. E quem conduzia a charrete? A mesma mulher que, momentos antes, se queixara a Ili de Ivã, e que o olhou por alguns instantes, protegida do calor do sol por um elegante chapéu e uma graciosa sombrinha rendada. Ili sorriu para ela, ainda mais interessado. Na verdade, sentiu que a sua pulsação se acelerou. Pensou, de novo, com os seus botões: não sei não, isso não ficará assim não...

Mal sabia ele que os seus caminhos ainda se cruzariam, o dele com o da bela mulher, e o de Ivã com o da potrinha.

Olhou, mais uma vez, para Ivã, e ouviu, desta vez, só ele mesmo, um relincho supersônico de estridente alegria.

Abilio Terra Junior
04/09/2011

 

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