Uma Cabeça Potente

Uma cabeça potente, como uma usina, com um formato triangular. Olhos inquietos. O corpo, com seus membros, fluidos, sangue. O coração pulsa e guarda a jóia rara, a única que perdura, do reino eterno. Uma pesada armadura, antiga, herdada, e ele passa, em seu Rocinante, entre as jovens, as mulheres, princesas, criadas, perdidas, que lhe lançam apelos, mas ele não as ouve, pois a sua armadura pesada lhe tapa os ouvidos. Ele caminha, no seu cavalo, pela floresta tenebrosa, encontra inimigos e feras, e trava combates. E traz cicatrizes. E imagina a poesia que irá compor, contando suas peripécias, apoiado pela musa, ora jovem, ora de meia idade, ora idosa, que, ao seu lado, segura a sua mão, por vezes, ou sorri, ou lhe corrige, ou lhe sussurra algo ao seu ouvido, que o surpreende. Ela sempre o surpreende.
Às vezes, ela surge nua, para provoca-lo. E até já fizeram amor, tão íntimos se tornaram. Às vezes, ela surge, com suas vestes dos tempos antigos, com muitas dobras, imensa, com cores diversas, e lhe traz novo ânimo.
Ele se perdera, quando criança, na grande gruta escura, junto com outras crianças, e seus olhinhos buscavam a luz, como todas elas. Por isto, se tornou severo consigo mesmo. Para sobreviver.
Dizia o pai de Jean Giono, segundo Henry Miller: ‘O erro que cometi foi querer ser bom e prestável. Tu vais cometer o mesmo erro que eu.’ E Henry Miller confessa que chorou: ‘Chorei por Giono, por mim mesmo, por todos aqueles que se esforçam por ser ‘bons e prestáveis.’ Por aqueles que continuam a tentar, mesmo sabendo, no mais fundo de si, que incorrem num ‘erro’. (in ‘Os Livros da Minha Vida’, Antígona Editores Refractários).
Sabia ser esse também o seu caso. Não que ‘se esforçasse’ para isto. Já trazia nos seus genes, assim como o seu pai, os seus ancestrais. Não conseguiria mudar jamais. Até que já tentara, ‘perdido na floresta escura’, mas em vão. Não se muda um destino. Pelo que se lembrava, outros parentes seus, do seu lado paterno, eram assim. Achava até que seu pai morrera por este motivo.
Tom Tom ama Eloise, e se lança ao espaço (O Hotel de Um Milhão de Dólares, de Wim Wenders). O anjo Damiel ama Marion, e se condensa em um corpo de homem, encontra Marion, se dizem belas palavras de amor, e se tornam amantes (Asas do Desejo, de Wim Wenders). [Vejam os vídeos no meu Blog].
Tom Tom e Damiel trocam de papéis. Tom Tom se torna um anjo e Damiel, um homem de carne e osso. Tudo em nome do amor. Ambos se perderam, pois mudaram os seus destinos. Não se muda o destino, impunemente. Mas ambos fizeram o que desejavam, no mais íntimo do seu ser. Então, como criticá-los? Ao se perderem, se encontraram.
Ele assim pensava, e os admirava por isso. E, dentro da sua pesada armadura, começava a conceber um novo poema, inspirado em Tom Tom e Damiel.

Abilio Terra Junior
19/03/2009

 

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